A polarização política tem ultrapassado o campo institucional e alcançado espaços tradicionalmente voltados ao diálogo e à espiritualidade, como a Igreja Católica. À medida que o Sínodo sobre a Sinodalidade se aproxima, essas tensões internas tornam-se mais visíveis e revelam um cenário complexo, no qual fé, identidade religiosa e disputas ideológicas se entrelaçam. Este artigo analisa como a polarização política está dividindo os católicos, quais são os impactos desse fenômeno no processo sinodal e de que forma a Igreja pode lidar, na prática, com esse desafio contemporâneo.
Nos últimos anos, a Igreja Católica passou a refletir, de maneira cada vez mais clara, as divisões presentes na sociedade. Grupos de fiéis com visões políticas distintas tendem a interpretar documentos, discursos papais e orientações pastorais a partir de lentes ideológicas. Esse movimento não surge do nada. Ele é fruto de um contexto global marcado pela radicalização do debate público, pela circulação acelerada de informações e pela dificuldade crescente de convivência com opiniões divergentes. Dentro da Igreja, esse cenário gera disputas narrativas que enfraquecem a ideia de comunhão.
A proximidade do Sínodo sobre a Sinodalidade amplia esse debate. O processo sinodal propõe escuta, participação e corresponsabilidade, valores que exigem abertura ao diálogo e disposição para compreender o outro. No entanto, a polarização política cria barreiras emocionais e simbólicas que dificultam esse caminho. Muitos católicos passam a enxergar o sínodo não como um espaço espiritual de discernimento, mas como um campo de disputa ideológica, projetando medos e expectativas que pouco dialogam com sua proposta original.
Um dos efeitos mais visíveis dessa polarização é a fragmentação do discurso religioso. Setores mais conservadores tendem a interpretar a sinodalidade como uma ameaça à tradição, enquanto grupos mais progressistas a veem como uma oportunidade de reformas profundas. Essa leitura binária empobrece o debate e reduz a complexidade da experiência católica. A Igreja, que historicamente conviveu com diversidade interna, passa a enfrentar dificuldades para sustentar uma unidade que não seja confundida com uniformidade.
Do ponto de vista prático, essa divisão afeta a vida cotidiana das comunidades. Paróquias, movimentos e espaços de formação tornam-se ambientes tensionados, nos quais temas sociais, políticos e até litúrgicos geram conflitos abertos ou silenciosos. Em vez de fortalecer o testemunho cristão, a polarização enfraquece a credibilidade institucional da Igreja, sobretudo diante de uma sociedade que observa essas disputas como sinal de incoerência entre discurso e prática.
Editorialmente, é preciso reconhecer que a polarização política não é apenas um problema externo que invadiu a Igreja. Ela também revela fragilidades internas, como a dificuldade de formação crítica dos fiéis e a tendência a reduzir a fé a posicionamentos ideológicos. Quando a identidade católica passa a ser definida mais por alinhamentos políticos do que pelo Evangelho, perde-se o horizonte comum que sustenta a comunhão e o diálogo.
O Sínodo sobre a Sinodalidade surge, nesse contexto, como um teste decisivo. Sua proposta não é eliminar divergências, mas criar métodos e atitudes que permitam convivência e discernimento coletivo. A sinodalidade exige escuta real, o que implica aceitar o desconforto do contraditório e resistir à tentação de respostas simplistas. Para que isso aconteça, é fundamental que líderes religiosos e leigos assumam uma postura pedagógica, ajudando as comunidades a diferenciar fé, opinião pessoal e militância política.
A superação da polarização dentro da Igreja não ocorrerá de forma rápida. Trata-se de um processo gradual, que envolve formação, diálogo e maturidade institucional. No entanto, ignorar o problema ou tratá-lo como algo secundário pode comprometer o próprio sentido do sínodo. A Igreja corre o risco de transformar uma proposta de renovação espiritual em mais um espaço de conflito, caso não enfrente com clareza as divisões que a atravessam.
Em síntese, a polarização política entre católicos representa um dos maiores desafios contemporâneos para a Igreja, especialmente no contexto do Sínodo sobre a Sinodalidade. Mais do que uma disputa de ideias, trata-se de uma crise de convivência e escuta. O futuro desse processo dependerá da capacidade da Igreja de reafirmar sua vocação ao diálogo, sem ceder à lógica da polarização que marca o mundo atual.
Autor: Davis Wilson

