A gestão patrimonial multigeracional protege o patrimônio familiar? Entenda como funciona

By Alexandre Valenne
8 Min de leitura
Rodrigo Gonçalves Pimentel

“Pai rico, filho nobre, neto pobre.” O ditado, frequentemente citado por profissionais que acompanham famílias empresárias, como o advogado Rodrigo Pimentel, resume uma trajetória comum: o patrimônio construído pelo fundador se dilui ao longo das gerações seguintes. A erosão raramente decorre de um único erro. Ela decorre de sucessivas divisões, de decisões arbitrárias e da ausência de diretrizes para gerir o patrimônio herdado.

A razão é aritmética: um patrimônio dividido entre três filhos na segunda geração e entre dez netos na terceira. Se a riqueza não crescer mais do que a família, cada fração recebida por um herdeiro é menor.

A gestão patrimonial multigeracional tem como premissa o reconhecimento desse movimento e busca organizar o patrimônio para que este permaneça produtivo mesmo quando o número de proprietários aumenta. Os tópicos a seguir explicam por que a riqueza familiar tende a se dispersar, quais estruturas ajudam a evitar esse processo e que papel a preparação dos herdeiros desempenha na continuidade.

Por que o patrimônio se dilui entre as gerações?

A primeira causa é a fragmentação. Quando bens imóveis, participações societárias e investimentos são compartilhados de forma igualitária, cada herdeiro passa a possuir frações diminutas de ativos que, em sua totalidade, geravam valor. Um imóvel comercial em condomínio entre oito primos, por exemplo, depende de consenso para ser alugado, reformado ou vendido, e esse consenso nem sempre é alcançado.

O segundo motivo é o consumo do capital. Herdeiros que não participaram da construção do patrimônio tendem a vê-lo como fonte imediata de renda, não como base produtiva a ser preservada. Ademais, o advogado Rodrigo Pimentel, cuja atuação abrange questões patrimoniais e sucessórias de famílias empresárias, observa que a ausência de uma política sobre retiradas transforma o patrimônio comum em uma reserva que cada um tenta acessar antes dos demais.

Além disso, há os custos da própria transmissão. Inventários longos, tributação sobre heranças e doações e disputas judiciais consomem parte do valor a cada troca de geração. Com a reforma tributária, o custo de transmitir patrimônio sem organização tende a ser maior.

Por fim, é importante considerar a perda de conhecimento, um aspecto que o advogado Rodrigo Pimentel associa diretamente à sucessão de famílias empresárias. O fundador sabe por que cada ativo foi adquirido, quais negócios dependem de que relações e que riscos estão envolvidos. Sem essa informação, herdeiros tendem a tomar decisões guiadas pela necessidade de curto prazo.

Estruturas que mantêm o patrimônio unido

Preservar riqueza exige separar a titularidade do patrimônio de sua administração. Em vez de cada herdeiro possuir uma parte específica, a família passa a ter uma parte de uma estrutura concentradora de bens. Nesse caso, a holding familiar é o instrumento mais importante.

O Dr. Rodrigo Gonçalves Pimentel, especialista em estruturação patrimonial internacional, destaca que o modelo deve considerar a localização do patrimônio e dos herdeiros. Famílias com bens ou membros no exterior enfrentam regras sucessórias e tributárias de vários países. Uma estrutura feita apenas para o Brasil pode gerar problemas.

A estrutura, no entanto, não é autônoma. É preciso que haja documentos definindo como as decisões são tomadas, quem administra, como os resultados são distribuídos e as condições para a venda da participação dos herdeiros. Sem tais regras, a holding apenas transfere os conflitos existentes para a sociedade.

A perspectiva de Sideni Soncini Pimentel, advogado e desembargador aposentado com mais de quatro décadas de magistratura, contribui para a compreensão do valor dessa formalização. Estruturas com regras claras reduzem o espaço para interpretações divergentes.

Rodrigo Gonçalves Pimentel
Rodrigo Gonçalves Pimentel

Quais instrumentos ajudam a garantir a continuidade do patrimônio familiar entre gerações?

Além da estrutura societária, famílias que preservam riqueza por várias gerações costumam combinar diferentes instrumentos, cada um responsável por uma parte do problema:

  • Holding familiar: concentra os ativos em uma única pessoa jurídica, evita a fragmentação de bens e facilita a transmissão por meio de quotas.
  • Acordo de sócios: estabelece regras de voto, direito de preferência, critérios de avaliação de participações e condições de saída de herdeiros.
  • Doação de quotas com cláusulas restritivas: permite antecipar a sucessão com proteções como incomunicabilidade, impenhorabilidade e reversão, preservando o patrimônio diante de eventos como divórcios ou dívidas pessoais.
  • Reserva de usufruto: mantém com o fundador a administração e os rendimentos, enquanto a titularidade já é transferida aos herdeiros.
  • Protocolo familiar: registra valores, critérios de ingresso de familiares na gestão e regras de convivência entre os ramos da família.
  • Política de investimentos e de distribuição: define quanto do resultado é reinvestido e quanto é distribuído, protegendo o capital produtivo.

O advogado Rodrigo Pimentel destaca que a escolha e a combinação desses instrumentos dependem da composição de cada patrimônio. A coerência entre eles é decisiva: uma cláusula de doação ou um testamento que contradiz o contrato da holding pode anular a proteção que cada documento deveria oferecer.

A preparação dos herdeiros é parte integrante desse processo. Segundo Rodrigo, estruturas perdem eficácia quando não são entendidas pelos herdeiros. A participação em conselhos de família e decisões estratégicas é uma forma de aprendizado e evita rupturas.

Riqueza que atravessa gerações depende de método

O ditado popular sobre o neto pobre descreve uma tendência, não uma sentença. A dispersão do patrimônio ocorre quando cada geração recebe bens sem receber, junto com eles, as regras e o conhecimento necessários para mantê-los produtivos. Em ambientes estruturados, governados e preparados, a riqueza pode ser sustentável e perdurar por várias gerações.

A experiência de Sideni Soncini Pimentel na magistratura e na advocacia reforça a importância da organização em vida, pois as disputas mais difíceis de resolver são aquelas envolvendo patrimônios sem regras definidas.

Portanto, o desafio da gestão multigeracional não está em acumular mais, mas em fazer com que o patrimônio sobreviva à multiplicação de seus donos. Uma família que cresce sem compartilhar o que construiu precisa aprender a decidir em conjunto. Esse aprendizado é, na prática, o ativo que garante a permanência de todos os demais.

Sobre os especialistas

Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado, empresário e sócio do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Sua atuação envolve questões empresariais, patrimoniais, societárias e sucessórias relacionadas a empresários e famílias empresárias.

Sideni Soncini Pimentel é advogado, desembargador aposentado e integrante do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Após uma trajetória de mais de quatro décadas na magistratura, iniciou uma nova fase profissional na advocacia, com atuação consultiva e estratégica.

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